quinta-feira, 5 de agosto de 2010

COMPONDO (ALBAPA)

Se eu fosse escrever um poema
Se eu colheria rosas encarnadas
Se contaria punhados de estrelas
Ou caçaria borboletas douradas.

Se eu fosse escrever um poema
Não sei se fitaria o céu a dançar
Se escutaria o rumor das procelas
Ou cismaria sozinha ao luar

Se eu fosse escrever um poema
Pleno de vida, de luz e de cores,
Voaria por todo o universo 
Pelos caminho atapetando flores...

Se eu fosse escrever um poema
Que narrasse a vida em seu esplendor !
Harmonioso, sublime, perfeito
Escreveria um verso apenas: AMOR.
(1973)



SAUDADE

Saudade explica por que é que a gente
Alimenta tanto este teu sofrer
Mesmo sabendo que o tempo ido
Não poderá jamais retroceder

Saudade - um cutucar de espinhos
Com mel na ponta pra ludibriar
A gente bebe, tem sabor de vinho
Que só faz mesmo nos embriagar


Saudade - um cair de folhas mortas
Se esparramando soltas pelo chão
Emana seiva que alimenta a terra.
Como a lembrança, aduba o coração

Saudade, dor doída que consola
Mesmo fazendo o coração sofrer
Mas quem na vida não pediu a ela
Uma esmola pra sobreviver.


Coaraci, Julho de 2007


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Busca



Que busco eu ?
 Amor?
Venturas?
Aventuras?
Que busco eu?
O olhar que não veio?
O sorriso que secou?
O beijo que não foi meu?
Que busco eu?
Não sei!
Quem sabe?
Ninguém?
Nem eu. 
      Ilhéus-Bahia/1969
                

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

SONHOS IDOS

Tentei, quis ser e não fui
e não sendo
acreditei que não sonhei como devia

fui poeta, artista
cantora, pianista
conheci o mundo inteiro
e o mundo me consagrou.

acreditei que cantava
encarei plateias e fui aplaudida.
libertei na voz a alma escondida
e desperta ainda, continuei a cantar.

fui artista, roteirista,
desempenhei inúmeros papeis
em peças que eu mesma escrevi
e que não sendo, de fato não as vivi

fui poeta, versista
de rimas pobres, quebradas
quis dizer tudo e não disse nada
estéreis as minhas inspirações

quis ser, não fui e nem sou.
sou apenas mais uma que sonhou viver
e não viveu o que de fato sonhou

de “ista” em “ista”
foi grande a minha lista
e pequena a minha lucidez

para que aterrissei?
não sei.
não me encontrei aqui
joguei, julguei, representei
e sem morrer, morri.

Rio, 1989. Jailda Galvão Aires.



quinta-feira, 15 de julho de 2010

VERCEJANDO


Se os versos versejam,
Versáteis que sejam,
Quem tem dó de mim?
Se forem mal feitos
Ou mesmo imperfeitos
Não ferem assim.


Se os versos que verso,
Revira meu avesso
Versados não são.
É vero o que digo,
São pobres, não ligo,
Que importa a versão. 


Os versos versados
Vernaculizados,
Sinceros serão?
Perfeitas poesias,
Mesclando ironias

São veros ou não?


Meus vívidos versos
Quer sejam aversos,
Quem sabe de mim?
Se são controversos,
São puros meus versos,
Não os tratem assim

 
Se as letras que vergo,
Eu sempre as enxergo,
Mostrando quem sou
Escondo nos versos
Meus ais, meus reversos,
Versejando eu vou.

 
Prefiro meus versos
Que as rimas, não meço,
São pobres, mas meus.
Reversos da alma
Versando me acalma
Meus versos sou eu.
            Rio, 11/10/2008. Jailda


segunda-feira, 21 de junho de 2010

NORDESTE (ALBAP)


Vira mundo, mundo seco!
Quem vê o pranto de tua gente,
Caído ao chão qual semente,
Que o sol não deixa nascer? 


Secaram todas as fontes.
Ficaram só as lembranças

No triste olhar das crianças
Que nada têm pra colher


No chão, só listras de sombras,
De esqueletos palitos,
Erguendo ao céu como um grito,
Perdido na imensidão.


Nem folhas fazem adubo,
Nem mesmo o vento as leva,
Se misturam com as pedras,
Se confundem com o chão.


Vira mundo, mundo seco,
Muda o sol do meu sertão,

Muda a sorte, muda a cor,
Muda a vida, acaba o pranto.
Brote a semente no chão,
A esperança no homem,
Cresça a criança com fé,
Numa mais justa nação.


Vira mundo, mundo velho,
Enrugado, abandonado!
Vira a sorte do teu mundo
Pede um milagre uma unção.
Todo o Nordeste com vida
Com as flores da esperança,
Sorrindo como crianças
Num verde que cubra o chão.
      1971- Coaraci - Bahia



terça-feira, 15 de junho de 2010

MARIA EM TRÊS TONS

Maria criança
Maria de trança
Correndo pro mar
Cantigas de rodas
E rodas gigantes
Maria sapeca
Maria boneca
Maria a cantar!


Maria só risos
Cabelos tão lisos
Brilhando ao luar
Tão cheia de sonhos
De sonhos tão lindos!
Maria boneca
Maria moleca
Maria a dançar.


Maria Magdala
Sem teto, resvala,
Correndo a gritar
Ninguém quer Maria
Tão magra, tão fria,
Maria peteca
Maria meleca,
Maria a chorar.

( Rio 29 /01/2009 )